Entrevista com Urs Lehni


 

Acqua Alta

Acqua Alta: Calle Longa S. Maria Formosa, 5176/b, 30122 Castello, Veneza, Itália




Acqua Alta é o fenômeno em que a água do mar, durante a maré alta e primavera, entra nas ruas de Veneza obrigando os moradores e turistas a caminharem de galochas e alguns comércios a serem evacuados. Acqua Alta também é o nome da livraria de Luigi Frizzoque entre as perturbadoras e alagadas vielas lotadas de turistas, preserva mais de cem mil livros.


Acqua Alta foi aberta há 15 anos. É a terceira loja de livros que Luigi abriu em Veneza. As outras duas que teve eram muito pequenas e ele decidiu vendê-las para procurar esse grande espaço.

Luigi começou a comprar livros novos e de segunda mão há 40 anos, segundo Lino Frizzo, seu filho, “decidiu abrir uma livraria, porque ele queria passar uma mensagem Steiner porque ele é Steineriano (Rudolph Steiner)”. Luigi queria salvar os livros da maré alta e por isso estão todos guardados em gôndolas, navios, caiaques e banheiras. Do lado de fora, pilhas de livros formam muros e com a água que vai e vem, os livros formaram uma massa tão resistente quando tijolos.

Comprei um livro italiano infantil de 1840, todo impresso em tipografia em três cores por 15 Euros. No caixa, Luigi diz que pareço uma estrela de Hollywood. Agradeço. Lino me conta “Meu pai é um homem muito engraçado e ele ama muitas mulheres. Ele é muito gentil com as mulheres na livraria.”

Fotos: Bia Bittencourt
Entrevista com Urs Lehni


 

Salve Luzia



Ana Luiza Nobre
Rio de Janeiro, 15 de setembro de 2018









Texto lido por Ana Luiza Nobre na ocasião do evento: museu do louvre pau brazyl - os fins dos museus, uma mesa composta com Renata Motta, Ana Luiza Nobre e a antropóloga Luísa Valentini para debater significados e perspectivas dos museus em relação a patrimônio, memória e imagem nacional.


Imagem: Ciro Miguel

Íntegra
Salve Luzia, Adandozan, Rondon, Sha-Amun-en-su, Ámon, Kherima. Tubinambás, Botocudos, Ticunas, Nambiquaras. Salve baleia jubarte, salve preguiça gigante. Saravá Omolú. Suas cinzas são a memória crítica do Rio de Janeiro Olímpico. O reverso da imagem dos novos museus que acompanharam a mais recente operação promocional da cidade. Museus públicos cuja construção foi priorizada em relação a todo o patrimônio museológico e cultural existente na cidade, por meio de programas e recursos nunca esclarecidos, com projetos arquitetônicos e curatoriais distribuídos de forma obscura e autoritária. Museus claramente comprometidos com um modelo de gestão urbana baseado no viés mais perverso dos movimentos atuais de globalização. Museus cujo caráter icônico foi muito mais motivado por fins publicitários que culturais.

Nada resume melhor estes fins do que o museu que expressa o próprio fim da ideia de museu: o Museu do Amanhã, inaugurado em dezembro de 2015 na Praça Mauá. Embalado por uma campanha de publicidade maciça que bombardeou imagens gloriosas da nova obra na TV, no jornal, na janela do táxi e até no carnê do IPTU, o museu recebeu mais de 100 mil visitantes só no primeiro mês de abertura. E o número seria muito maior caso tivessem sido incluídos os que desistiram das longas filas no calor esturricante do verão carioca sem poder contar sequer com a sombra do novo museu. Nem com a brisa do mar, já que a tantas vezes prometida despoluição da Baía de Guanabara não sairia mesmo do papel. Mas quem parecia se importar? Para muitos, bastou o selfie diante da última realização do arquiteto espanhol Santiago Calatrava, a viralizar o discurso autocelebrativo imperante na cidade nos últimos anos. Click. O Museu do Amanhã se tornou mais popular que a velha Quinta da Boa Vista, para alegria dos seus promotores: a Prefeitura, a Fundação Roberto Marinho e o Banco Santander.

No novo museu, projeto arquitetônico e museológico fundiram-se para produzir um bombardeamento de ambientes imersivos, instalações multimídias, telões espetaculares e jogos interativos que rebaixa os sentidos à hiperexcitação e acaba abonando um descaso pelo passado que hoje dói mais que nunca. Porque no Museu do Amanhã não só o foco é deslocado para o futuro como se atribui ao passado uma dimensão catastrófica que põe em risco a própria humanidade. Daí o esforço de livrar o museu da própria ideia de passado. O que significou varrer dali qualquer acervo. A não ser por um único objeto físico, com o qual se encerra o percurso alegórico-expositivo sob a evocação de uma oca indígena: um churinga, artefato usado por aborígines australianos com o qual se pretende simultaneamente enaltecer tradições ancestrais, simbolizar a ideia de legado e remeter às formas arquitetônicas do novo museu. Click.

Construiu-se assim o emblema mais eloquente da mitologia do futuro que envolveu o Rio de Janeiro Olímpico, num processo que chegaria ao extremo no projeto educativo do museu. Ao público infantil, ofereceu-se como atividade educativa inaugural um “passeio das baratas”, em que os visitantes eram convidados a se vestir de baratas e ver o museu sob a sua perspectiva. Por razões supostamente históricas, aliás. Segundo um dos membros do Conselho Científico do novo museu: “As baratas estão no planeta há 250 milhões de anos e provavelmente permanecerão aqui depois de nós. O amanhã pertence a elas”.

Estranho amanhã, sobretudo num país como o Brasil, em que a educação – formal e não-formal – tem papel basilar.  Curiosamente, o museu já tinha sido apelidado popularmente de “baratão” por sua semelhança formal com o invertebrado que até poucos dias atrás integrava a rara coleção de insetos do Museu Nacional. Entre os quais bandos de crianças circulavam intrigadas e frequentemente de uniforme escolar, a criar as suas próprias fantasias.

Já foi dito que se a cultura americana é atravessada pelo medo do declínio, e a portuguesa pela glorificação do passado, a brasileira convive com o espectro do futuro. De um modo ou outro, subjaz a esse imaginário uma perspectiva projetiva supostamente capaz de deixar para trás um passado marcado pelo trauma da colonização, cuja história está necessariamente ligada ao palácio que por 200 anos abrigou o museu nacional, bem como às origens do seu acervo.

Daí o desprestígio do velho museu em relação aos novos, estes sim aptos a cumprir finalmente a promessa tantas vezes redesenhada de modernização.  Como se as Olimpíadas, por si só, fossem acabar de vez com a piada popular que garante que o Brasil é, e sempre será, o país do futuro. Por isso o anúncio da escolha do Rio de Janeiro como cidade sede dos Jogos de 2016 foi comemorado como uma conquista: “o Brasil ganhou definitivamente a sua cidadania internacional”, declarou em Copenhague o então presidente Lula, com o rosto coberto de lágrimas. Click.

Logo a ideia positivada e espetacularizada do futuro como um tempo luminoso, prestes a chegar, sustentaria um boom de obras no Rio de Janeiro: além dos novos museus, multiplicaram-se edifícios corporativos, hotéis, arenas, infraestrutura, sistemas de transporte. Sob o caráter redentor dessa promessa, tudo seria justificado: do caos no trânsito à remoção forçada de cerca de 100 mil pessoas. Como se tanto o presente quanto o passado estivessem subordinados, por um nexo causal, a uma meta bem definida no futuro – quando, enfim, a cidade do Rio de Janeiro supostamente desfrutaria do assim chamado “legado olímpico”.

Essa imagem celebratória da cidade foi mantida à custa de muitos apagamentos, no entanto. O caso mais chocante foi a campanha internacional da Petrobrás (2011), em que a imagem aérea da cidade mostrou encostas livres de qualquer traço de favelas. Operação similar à adotada pelo Google earth, que chegou a suprimir o termo “favela” das imagens de satélite de áreas centrais da cidade. E não tardou para que as obras olímpicas mostrassem também as práticas arcaicas subsistentes na retomada da indústria da construção civil. Entre janeiro de 2013 e março de 2016, 11 operários perderam a vida em canteiros de obras de instalações esportivas ou de legado para as Olimpíadas. Um deles no Museu do Amanhã – por ironia, âncora do projeto de revitalização da cidade. Outro no MIS/Museu da Imagem e do Som. Ambos, aliás, ligados à Fundação Roberto Marinho – assim como o MAR/Museu de Arte do Rio, que completa a tríade dos novos museus cariocas.

Pelo protagonismo assumido pela TV Globo na concepção curatorial do MIS (que dedicou um setor às telenovelas, outro aos Trapalhões), e pela presença garantida à sua logomarca no quiosque do outro lado da rua (onde uma enorme televisão se sobrepõe à vista do mar) não será surpresa se o museu erguido no bairro mais turístico da cidade, se/quando concluído (as obras estão paralisadas desde 2015) vier a se tornar o próprio museu da rede Globo. Porque se já não bastasse a onipresença da Globo na vida da cidade, agora ela é também responsável por três dos seus mais novos museus.  Todos fantásticos. Todos globais. Click.

Guardadas as diferenças, há muito em comum entre o MIS, o MAR e o Museu do Amanhã, em todo caso, enquanto representantes de uma mesma intenção projetual: oferecer mais imagens e vistas espetaculares da cidade, condizentes com a retórica autocelebrativa da cidade olímpica. Mas a evidente frontalidade do MIS mostra também uma postura altamente seletiva em relação à diversidade e multiplicidade da vida urbana contemporânea. Não há nenhum esforço de articulação com o tecido sócio-urbano do interior de Copacabana, nenhuma relação – em termos de escala, linguagem ou espaço – com a rua posterior, uma típica rua de bairro, com edifícios residenciais e bares de esquina. A matriz do projeto é claramente a imagem esterotipada da “cidade maravilhosa” e o que fica por trás é quase sua “contrapaisagem” – algo subalterno e destituído de valor, que entra no máximo pela porta dos fundos.

Reproduz-se assim muito das assimetrias brasileiras. Tanto a lógica da ocupação territorial do país, concentrada na faixa litorânea desde o período colonial, quanto o sistema casa-grande e senzala encontram-se reificados, afinal, no novo museu, que se aparta também do vizinho Museu de Favela (MUF), criado por moradores de uma favela encravada no morro do Cantagalo.  O MUF foi criado um ano antes do concurso do MIS e da instalação da UPP/Unidade de Polícia Pacificadora na favela, e colocou em prática uma dimensão museológica renovadora, ao reivindicar como acervo a própria favela. Uma de suas ações principais foi a criação do circuito de “casas-tela”, um percurso a céu aberto pontuado por grafiteiros locais que usaram as fachadas de algumas casas para criar uma narrativa visual da própria história da favela.

Só isso já justificaria alguma adesão do MIS ao museu vizinho. Mas a arquitetura do escritório nova-iorquino Diller Scoffidio+Renfro vira as costas para o morro e serve-se dele como pano de fundo para o seu próprio display. Basta ver as perspectivas renderizadas do projeto. Ou comparar os dois cortes longitudinais. De frente para o mar estão as áreas expositivas e a escadaria monumental, concebida, segundo os arquitetos, para “democratizar a vista da praia”. Nos fundos, todo o núcleo de serviços, oculto de quem passa pela orla. O novo museu mostra-se assim não só espantosamente insensível às desigualdades sócio-espaciais que assolam o país quanto desdenha do seu próprio potencial transformador, ao preferir a inserção fácil no cartão postal mais batido da cidade.  

Mas o pior é que o MIS não é caso único de incomunicabildade entre os novos museus cariocas e os museus comunitários surgidos na última década sob impulso do Ibram/Instituto Brasileiro de Museus – cuja extinção, há poucos dias, é mais um claro sinal de retrocesso da política cultural brasileira. Nem de longe as estratégias museológicas dos novos museus mostraram-se renovadas a ponto de instituir um diálogo produtivo mais amplo com museus de cunho social como o Museu da Maré (criado há 20 anos) ou os mais recentes Museu Sankofa da Rocinha, do Horto, e das Remoções, todos comprometidos fundamentalmente com movimentos de valorização de memórias comunitárias e práticas de micropolítica desenhadas a contrapelo do rolo compressor dos megaeventos internacionais.

O que é difícil aceitar, afinal, é que a política cultural do Rio de Janeiro se pautou, nos últimos anos, não por uma discussão atualizada sobre patrimônio mas por uma noção de futuro comprometida essencialmente com a cultura do entretenimento e a lógica da especulação imobiliária. A despeito do suspeitoso título de patrimônio da Humanidade com o qual a cidade foi distinguida em 2012, mesmo o Cais do Valongo – memória tangível da brutalidade da escravidão, e hoje também reconhecido pela Unesco – esteve prestes a ser reenterrado sob as novas obras viárias da área portuária. Em meio às quais foi descoberto por acaso, aliás.  

Por tudo isso, já não podemos falar em legado, mas em sequelas: intervenção militar, canteiros parados, remoções, desemprego, medo. E como se não bastasse, agora a tragédia anunciada do incêndio do nosso mais antigo e precioso museu. Passados quarenta anos do incêndio do Museu de Arte Moderna e nove do incêndio do acervo de Hélio Oiticica, vivemos uma tragédia sem precedentes, que aniquila ao mesmo tempo uma parte significativa do nosso passado e qualquer esperança de futuro. O que resta, no entanto, tem a força de Bendegó: a imagem do velho museu em chamas, a assombrar para sempre as novas maravilhas do Rio.

Salve Luzia



Ana Luiza Nobre
Rio de Janeiro, 15 de setembro de 2018









Texto lido por Ana Luiza Nobre na ocasião do evento: museu do louvre pau brazyl - os fins dos museus, uma mesa composta com Renata Motta, Ana Luiza Nobre e a antropóloga Luísa Valentini para debater significados e perspectivas dos museus em relação a patrimônio, memória e imagem nacional.


Imagem: Ciro Miguel
Íntegra
Salve Luzia, Adandozan, Rondon, Sha-Amun-en-su, Ámon, Kherima. Tubinambás, Botocudos, Ticunas, Nambiquaras. Salve baleia jubarte, salve preguiça gigante. Saravá Omolú. Suas cinzas são a memória crítica do Rio de Janeiro Olímpico. O reverso da imagem dos novos museu
Entrevista com Urs Lehn


 

Entrevista
com
Urs Lehni





por Bia Bittencourt









Em agosto, visitei o estúdio da Rollo Press (Zurique - Suiça) e seu criador Urs Lehni, impressor-professor-editor de livros como Hotel Nacional e O. Niemeyer.

Abaixo, breve entrevista que fiz.





1 _ 
Você pode contar sobre como você decidiu criar a Rollo, quando e o que você estava fazendo da sua vida naquele momento?

Acho que houve um pouco de decepção ou frustração quanto ao meu papel como designer gráfico no quadro de colaborações institucionais. Eu senti que muito dessa tomada de decisão foi política, motivada por um esforço colaborativo para produzir um bom livro, catálogo, monografia. Como uma reação a isso, decidi fazer uma tentativa de me publicar e, para manter os custos baixos e o processo mais simples possível, adquiri uma máquina de impressão Risograph. Isso foi no final de 2007. 




2_
Você trabalha sozinho? Como você faz escolhas e decisões editoriais desde que você começou?



Embora Rollo seja principalmente uma “one man band”, eu nunca trabalho sozinho. Dependo de inúmeras opiniões e conselhos de amigos e companheiros, restrições definidas pelo dinheiro (ou a falta) e oportunidades de produção limitadas, chance e sorte, e principalmente, claro, os autores com os quais trabalho. Não posso dizer como as decisões editoriais são tomadas, apenas que elas são sempre o resultado de uma troca e diálogo com várias pessoas.




3_
O que mudou de quando você começou até agora?


A única coisa que realmente mudou são os métodos de impressão e produção. Durante os primeiros dois anos fazendo Rollo, eu produzi todos os livros à mão, imprimi-los no Riso, depois dobrava, colocava as capas, o grampo, ou costurava, encadernava. Isso foi muito gratificante, mas também limitativo em termos de impressão e, portanto, o público que podia alcançar. Depois disso, mudei para métodos de impressão mais convencionais, mas tenho uma habilidade para processos prosaicos produzidos em massa, como a impressão em brochura. Nunca fui interessado em criar livros objeto e livros únicos.

4_
O que você acha sobre os novos estúdios e a produção atual na Suíça?


Difícil de dizer em geral, mas existem novas pessoas. Para ser sincero, penso pessoalmente que os dias de design gráfico estão contados - mas não falem pra ninguém! Além disso, ainda estou espantado de que existam estúdios dentro, mas principalmente fora da Suíça, que conseguem empurrar as coisas para frente. Eu acho que você poderia dizer que a Suíça tem um problema de bem-estar e está saturado demais, por isso muito designer se sente isolado, arbitrário, substituível e genérico. Ou talvez eu apenas esteja numa crise de meia-idade….




5_
Você tem alguns bestsellers que eu já vi disponíveis em muitas livrarias fora da Europa. Como você distribui? Como você achou que criou esses best-sellers? Escolhendo os artistas certos?


Até agora, toda a minha distribuição é feita pela Idea Books de Amsterdã, eles são ótimos e estou feliz que eles conseguem se livrar de minhas coisas. É verdade que tenho um monte de livros que felizmente vendem bem, mas também tenho outros, chamados queimadores lentos que estão em estoque por anos! Eu apenas publico o que eu acho que gostaria de um livro e, aparentemente, meu gosto é bastante importante para as pessoas.








Entrevista com Bruno Rios



 

Fotolivros e a
melancolia dos
apartamentos





por Bia Bittencourt

Publicado na Zum em 06 de novembro de 2017









A quantidade (e qualidade) de livros na biblioteca da Plana nos diz muito sobre o espírito de um momento. É pela repetição de temas e abordagens que entendemos melhor o que atrai os olhares de fotógrafos e artistas. E isso é cada vez mais dinâmico e verdadeiro, sobretudo quando lidamos com produções independentes, que passam rapidamente da imaginação e intenção do fotógrafo para o papel, o fanzine, o livro e as estantes. A facilidade de criar e publicar imagens na era digital acelera a circulação de livros e fanzines, o que encurta (e confunde) a distância entre quem produz e quem vê.

Foi com esse olhar que, entre tantos filtros possíveis, reparei que nossas casas, nossa intimidade, nosso pequeno espaço particular começou a ficar mais evidente. Nós, crias da metrópole, artistas de playground, andarilhos de quarteirão, estamos domesticados, em nossos poucos metros quadrados, a enxergar tudo de muito perto, sem recuo nem binóculo. Reza a lenda que os marinheiros têm visão boa porque não tiram os olhos do horizonte. Já nossa visão de alcance encurtado limita-se às paredes, aos muros e às empenas.

Encontrei algumas publicações com marcados traços de melancolia e solidão, sintomas prováveis da falta de distância e horizonte para observar a vida, coisa de gente da cidade. Nos nossos apartamentos, o que é sujeira do cotidiano vira monumento. Mínimos movimentos e gestos se transformam em poses. A revolução é doméstica, por entre cobertores, almofadas e canecas. Temos buscado a realidade ao redor com curiosidade, cautela e educação. Avisamos antes de clicar. Assim, a vida velada dentro de um apartamento pode ser tão exótica e interessante quanto a natureza. Será que passamos da fase de observar a miséria social emoldurada por uma janela?

No livro Estão preparando algo imenso na costa, a argentina Mariana Pacho López tenta dar sentido a essa intimidade doméstica de forma delicada. Isso é tão claro quanto a luz natural que entra pela janela, filtrada por cortinas de tule, e ilumina os rostos das meninas, suas mãos e o silêncio das relações. A publicação é permeada pela força de ondas quebrando na orla. As imagens remetem a apartamentos que já vimos antes: os tons de rosa claro, as peles sempre brancas, desbotadas, o cigarro e o café sem açúcar, lençóis desarrumados e olhares perdidos. Alguns psicanalistas afirmam que a solidão provoca isolamento dos outros, mas também distância e estranhamento de si mesmo.

Já em Branca, a fotógrafa brasileira Ligia Jardim não explica nada ao leitor. Mas posso contar aqui que são imagens da casa de sua falecida avó Branca. E novamente a mesma luz natural a entrar pela mesma janela coberta por cortinas de tule. Mas diferente de Mariana, que escolhe retratar meninas, Ligia olha para objetos: joias, caixas e louças. Uma memorabilia banal, doméstica, carregada de cheiros e lembranças prestes a serem encaixotadas, anuladas e catalogadas. “Muitas separações objetivas (como o luto) mostram-se retrospectivamente apenas uma ação para reintroduzir parênteses de solidão em uma vida poluída por ocupações e tormentos”, pontua o psicanalista Christian Dunker no capítulo “Solidão e solitude”, do seu livro de ensaios Reinvenção da intimidade.

Já em Aproximando-se do encapsulado, da artista de Sarajevo Sumeja Tulic, notamos mais explicitamente uma sensação de “não lugar” nesses apartamentos espalhados pelo mundo, como espaços de transição e de relações afetivas simuladas. No apartamento de Sumeja, canecas também servem de cinzeiros, lençóis bagunçados são iluminados através de tules e o naturalismo de flores falsas tem muito mais vida que mãos e rostos frágeis e juvenis.

No livro Sempiternamente, da argentina M. Virginia Molinari, amigos se reúnem em festas, viagens, em volta da Coca-Cola e do cigarro, com um sentido de solidão que é visto no olhar dessas pessoas, alheias de um convívio social. Há um fascínio que coloca o retratado não só dentro de um vazio espacial, como também existencial.

Imergir num conjunto de livros como esse nos empurra para dentro da intimidade das pessoas, das paredes de um apartamento desconhecido, dos segredos e nostalgias que não pedimos a ninguém para saber. A sensação turva de controle absoluto das cenas e o despedaçamento de nossas rotinas nas capturas fotográficas banais podem ser um reflexo nocivo, entretanto, lírico de uma geração e um tempo específico nas grandes metrópoles.


Entrevista com Bruno Rios



 

Entrevista
com
Bruno Rios














Não se sabe dizer se os dons são inatos ou apreensíveis. Talvez sejam um pouco dos dois.

No caso de Bruno Rios, a exposição ao mundo das artes moldou suas habilidades e preferências desde muito cedo e fez dele um dos artistas em ascensão na cena mineira, onde nasceu e cresceu, e que agora transcende.

Em entrevista à Plana ele fala um pouco sobre este lugar interno de onde emanam as vontades e os gostos, das influências que o convívio diário e o contato com outros artistas pode exercer sobre projetos pessoais e da introdução aos estudos formais e informais das artes plásticas. Bruno é responsável pelos desenhos nas peças gráficas da Casa Plana no primeiro semestre.



1 _ 
Queremos saber mais sobre você! Onde você nasceu? Como era a casa onde você cresceu? Quais são seus hábitos e hobbies?

Bom, nasci em Belo Horizonte mesmo e vivo aqui até hoje. Nasci e cresci em um barracão nos fundos da casa dos meus avós paternos, onde depois de várias mudanças meus pais retornaram e vivem até hoje. Era uma casa simples, de poucos cômodos mas com um quintal grande. Dividia um quarto com meu irmão e minha irmã até iniciar as reformas da casa. A sensação que tenho é que essa casa tá em reforma até hoje (risos). Como ela foi mudando muito ao longo do tempo, sinto que as memórias das várias configurações que teve  se diluíram um pouco e  se misturaram com as fases da vida que cresci ali. É uma casa que tenho muito amor. É a casa dos meus pais e toda vez que visito fico feliz de ver como aos poucos foram transformando o espaço como queriam.

Cara, levo uma vida simples. Tenho ficado boa parte do tempo na minha casa/ateliê por conta dos estudos do mestrado. Então é um dia a dia em torno disso: tomar conta da casa, do jardim, cozinhar, desenhar, estudar, fazer compras, sair para trabalhar, etc. Quando rola um tempo livre saio pra tomar um cerveja, ver filmes, exposições, espetáculos, visitar amigos, andar pela rua, dançar, etc.




2_
Quais eram seus planos de criança/adolescente?



Cresci querendo ser jogador de futebol. Joguei e investi nisso até o começo da adolescência. Depois desencanei. Fui aprender a tocar violão, queria ter uma banda e tal. Mas não tinha planos muito fixos, eram mais sonhos de realizar várias coisas ao mesmo tempo enquanto a vida permitisse. E sinto que tenho alguns desses sonhos até hoje.




3_
Você acredita que sua formação infantil e escolar tiveram grandes influências sobre seus projetos hoje?


Isso é muito louco! Tenho percebido essa relação das coisas que fiz na infância reverberando hoje de uma forma muito potente! Não tive aulas magníficas de arte nas escolas públicas que estudei mas sempre gostei, sempre me envolvia de alguma forma. Mas o que acredito que mais me influenciou foi essa coisa de mudar muito de casa, de ser muito curioso na infância, de estar sempre na rua, meio que descobrindo o mundo com os outros. Hoje olho para trás e vejo que meu avô materno foi uma figura fundamental no estímulo dessa curiosidade e inventividade. Ele trabalhava como alfaiate profissional mas estava sempre inventando coisas. Era um professor Pardal! (risos). Ficava elaborando coisas na oficina dele: churrasqueira com ajustes de velocidade, pegador de frutas pra alcançar a mangueira do quintal, móveis que se desdobravam e viravam outras coisas, etc. Tenho essa memória muito forte hoje, de estar ali com ele encaixando peças, soldando coisas, inventando parafernalhas. Dos desenhos que ele traçava com giz de costura nos tecidos. Ele me dava total liberdade pra fica brincando com aquelas ferramentas. É uma memória que parece que está impregnada no meu corpo até hoje, de ficar manipulando o mundo, desmontando o significado das coisas. Isso me influencia muito agora, desenho muito no chão, com os papéis soltos, como fazem boa parte das crianças ainda. Fico montando e remontando imagens atrás de alguma coisa, meio imerso naquele universo que pode surgir ali.

4_
Você já tinha contato com as artes antes de entrar na faculdade?


Ia em muitas peças de teatro e cinema na infância por conta de uma tia minha que sempre me levava. Mas não me ligava muito em artes visuais, apesar de sempre desenhar e tal. Comecei a me aproximar mais quando na adolescência conheci a Janeth Polck, artista plástica daqui de BH. Ela trabalhava na mesma biblioteca que uma das minhas tias trabalhava. Sempre ia lá pegar livros e visita-las. A Janeth estava pra fazer uma exposição e me chamou para ser seu assistente trabalhando com cerâmica. Foi uma experiência decisiva. Ter um contato direto com a matéria, entender como ela pensava arte e tudo mais. Várias vezes ao fim do expediente a gente sentava e ela me mostrava um monte de livros, catálogos e publicações de arte contemporânea. Via alguns trabalhos e voltava pra casa muito comovido! Pensando muito sobre aquelas imagens. Acho que ali decidi me aproximar mais das artes, mesmo ainda não entendendo muito o que aquilo era e o que poderia me oferecer.

Daí comecei a ir em mais exposições, ver mais coisas de artes plásticas. Por sorte ou destino, depois que trabalhei com a Janeth passei em um concurso público e trabalhei um tempo como recepcionista na galeria de arte pública da Copasa, empresa que faz o abastecimento de água aqui em Minas. Ali a coisa ficou ainda mais clara. Ver as montagens, as exposições e tudo mais me fez querer prestar vestibular pra artes na UFMG.




5_
Quais são seus artistas plásticos preferidos? Quem você considera uma influência relevante?


Cara, não vou citar todos porque seria impossível explicar como cada um me influencia ou porque gosto (risos) Um cara que sempre olho, que sempre me diz algo é o Tápies. O Cy Twombly também! A Mira Schendel e a Louise Borgeois também são inacreditáveis! Enfim! Acho que quase todo mundo que trabalha com desenho de alguma forma. O Cildo é um cara que fico sempre abismado na forma como trabalha! Um trabalho que se renova toda vez, sempre me toca muito! Tenho pensado muito nessa coisa da influência, mais direta mesmo, de fazer parte do meu processo, pessoas com quem posso compartilhar e aprender muito. Nesse sentido são meus amigos: Narowé, Ricardo Reis, Frederico Fillipi, Raphael Escobar, Laura Berbet, Clarice Lacerda, Matheus Ferreira, Bárbara Machado, Rodrigo Brum, Sara Lana, Luiza Fainblat, entre tantos outros que estão numa troca constante comigo. Trabalho como assistente da Solange Pessoa há dois anos também. Ela é um artista incrível! Poder participar do processo dela dentro do ateliê me dá mais força  pra continuar produzindo e seguir essa caminhada.


6_
O que os estudos formais das artes plásticas mudaram no seu modo de ver o mundo e, mais especificamente, na sua forma de interpretar seus artistas preferidos?


Acho que dentro da faculdade fui percebendo como as coisas se desenvolveram na história da arte. Como cada trabalho as vezes apontava para uma questão em determinada época e como aquilo reverberava no campo como um todo. Isso te faz ser menos ingênuo ao produzir uma imagem. Saber como ela se relaciona com outros trabalhos, o que pode dizer, de onde parte e tal. Fiz disciplinas técnicas em quase todas as habilitações: pintura, desenho, gravura, artes gráficas, etc. Era mais uma vontade de descobrir as possibilidades de cada coisa e poder formar um repertório meu, de coisas que me apeteciam. Isso transformou completamente o modo de enxergar as coisas do mundo. Estimulou o interesse pelos objetos e história das coisas de um modo que posso articulá-los.
7_
Como você vê a cena editorial independente de hoje em dia?


Acho que tem muita gente produzindo coisas legais, as pessoas tem se interessado mais pela materialidade, visualidade e propostas desse cenário. O que te abre um campo de leitura extremo que não é circulado pelo mercado comum de publicações. Mas não sou um especialista, meu contato se dá mais pelas feiras que participo como expositor ou como visitante mesmo. Acho isso demais! Poder ter contato com os produtores, entender a elaboração e etapa de cada projeto, trocar coisas, colecionar, etc. Acho massa também como as feiras articulam dentro das programações outras ações como palestras, oficinas, shows. Isso tudo colabora pra formação de uma cultura mais extensa do livro, do que é o livro em si e o que ele significa no mundo.

8_    
Como você acha que o design gráfico e a arte contemporânea podem influenciar os hábitos e gostos de leitura das pessoas?


São linguagens, ferramentas e metodologias que estão aí para propor abertura de campos de conhecimentos. Para despertar curiosidade, interesse. Nesse sentido é sempre uma obra aberta, que aponta para outros universos- obviamente quando se propõe a isso. Podem trabalhar esse campo sensível que conforma o ato de ler, de fazer leitura do mundo.









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